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O Tinder e as feministas de 1917

O Tinder e as feministas de 1917

Inicio me justificando: um paralelo pode ser absurdo até que se torne crível. Ainda que o capitalismo produza bizarrices incríveis, achei necessário avisar logo de cara que não, eu não vou problematizar o Tinder, nem vou fazer uma suposição lunática sobre o que as feministas de 17 falariam sobre o Tinder. Ainda que eu pudesse. Mas o que eu quero perguntar aqui é: alguém tem ideia de que diabo de relação a gente anda estabelecendo com as pessoas?

E o Tinder com isso?

Existe esse conceito de uma “modernidade líquida” que foi criado por esse cara chamado Zygmunt Bauman. Provavelmente você ouviu falar bastante dele nas últimas semanas por causa de sua morte dia desses. Bauman utiliza esse conceito pra descrever a transformação das relações sociais nas últimas décadas após uma suposta globalização, tornando nossa relação com o outro mais fluída, dinâmica e imediata. A teoria vai mais fundo, mas aqui, nos basta a ideia geral.

Isso te faz pensar em algo? Tudo bem, eu posso deixar mais óbvio.

Então a gente tem o Tinder. Passa pra esquerda. Passa pra direita. Esquerda, esquerda, esquerda. Hum, gostei, direita. Diz oi. Não respondem. Diz oi. Não responderam de novo. Lá se foram muitos minutos perdidos com exatamente nada. Opa! Alguém me disse oi. Respondi. Saímos. E depois disso nunca mais nos vimos. Volta pro Tinder. Direita. Direita. Direita.

Mas qual a crítica? É tão fácil. Você procura, acha, utiliza e descarta. Fluído. Dinâmico. Imediato. Parece até nossa relação com… objetos?

Presta atenção na outra parte da história agora.

Em 1917, logo após a Revolução Russa, as feministas soviéticas afirmavam que a libertação da mulher só se daria com a socialização do trabalho doméstico que estava inteiramente em suas mão. Assim ela estaria livre para cumprir o mesmo papel que o homem na sociedade, podendo estudar e trabalhar. Com a retirada do trabalho doméstico das costas das mulheres, colocando-o sob responsabilidade do Estado através de creches públicas, refeitórios e lavanderias, esperava-se também o fim de uma ideia destas enquanto um objeto com certas funções: casar, ter filhos, satisfazer sexualmente seu marido e cuidar da casa enquanto o homem gozava de uma vida um pouco mais digna. Essas mesmas feministas defendiam que o modelo patriarcal de sociedade necessita dessa objetificação do sujeito “mulher” para se reproduzir. Entretanto, ao criar um Estatuto da família que garantia essa emancipação das mulheres na União Soviética, pelo caráter de “objeto” que lhes permanecia designado no seio da sociedade em transição e portanto no imaginário geral dos soviéticos, a mulher se tornou algo descartável. Ora, se sua função fundamental estabelecida anteriormente seria transferida agora para o Estado, para os homens ainda carregados da ideologia burguesa machista, relacionar-se com uma constante troca de companheiras seria (e foi) o comum. Para as mulheres, evidentemente, essas relações mais “livres” não tiveram consequências tão libertadoras, já que o período seguinte viria a revelar centenas de crianças abandonadas.

O que Bauman falou sobre as tais relações líquidas já era criticado lá em 1915 pelas feministas que tiveram papel fundamental para pensar na emancipação da mulher após a Revolução Russa. Alexandra Kollontai, uma destas feministas, cita já em 1907 o motivo para tudo isso, e nada tem a ver com globalização, com acesso a aplicativos moderninhos em smartphones caríssimos, não! Alexandra fala da necessidade uma “reconstrução completa das relações modernas”, o que passa pela relações de trabalho e evidentemente reflete de forma direta nas relações interpessoais.

“Em outras palavras, as mulheres só podem se tornar verdadeiramente livres e iguais apenas em um mundo organizado por novas linhas sociais e de produção.”

Significa dizer que, a objetificação das mulheres lá na Rússia, tal qual a objetificação ao outro nas relações interpessoais hoje, são reproduções da lógica capitalista do “descarte” já conhecido nas relações de trabalho e produção. O individualismo unido a esse conjunto de práticas que desaguam numa obsolescência do ser humano caem como luvas às mãos do sistema que precisa de uma classe oprimida que reproduz em suas relações a crueldade de seus exploradores.

E segue o Tinder da humanidade a utilizar e descartar pessoas-objetos que ainda não se deram conta que elas mesmas são as engrenagens do mundo.

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