Select Page

O Mal-estar da Premissa

A vida é muito mais do que a soma de seus momentos

Zygmunt Bauman

Este não é um texto motivacional. Este não é um texto romântico. Este é um texto crítico. Este é um texto que exibe a minha verdade sobre as realizações e modo de vida, até então. No contexto em que escrevo esta é uma abordagem a vida, a realidade, ao amor e o que mais se encaixar nos parâmetros e ramificações das frases.

É comum na nossa sociedade ouvir frases de que a vida é curta e deve ser aproveitada ao máximo e nesse ponto que eu realizo esse questionamento: O que é aproveitar ao máximo a vida? Eu início citando Bauman:

“A Vida é muito mais do que a soma dos seus momentos.”

Momentos, essa é uma palavra que vem se confundido e prejudicando toda uma cultura em que as pessoas tem medo do sempre ou do tempo. Eu aprendi a parar de temer essas palavras, creio que encontrei minha verdade a partir do momento que aceitei a realidade. Quando digo aceitar a realidade não é aceitar o que é imposto; o que está impregnado no sistema, mas sim enxergar a realidade para assim conseguir viver de verdade, por mais duro que seja, mas de verdade. E essa não é uma visão pessimista, muito pelo contrário, viver a realidade é viver. Dizem para aproveitarmos os dias como se fossem os últimos, mas e se não for? A sociedade e a juventude vem se entregando ao álcool e as relações líquidas de maneira sucessiva, destruindo as relações reais e concretas. Dizem que a vida é curta e devemos aproveitar ao máximo, mas o que geralmente vem à cabeça com “aproveitar ao máximo”? Ir as festas, ficar com o máximo de pessoas possíveis, não se dedicar a um relacionamento por medo de estar perdendo tempo ou desperdiçando a vida. Eu digo onde me imagino com 70 anos, eu quero criar lembranças sim, mas não quero olhar para trás e vi que desisti de um grande amor, ver que com os meus 17 anos eu estava perdido, m eentregando, não me apegando a algo. Com 70 anos eu quero olhar pra trás e ver que eu amei como pude uma pessoa, que eu utilizei meu tempo estudando o máximo possível para que todo o conhecimento adquirido durante milhares de anos pela humanidade não tenha sido em vão, pelo menos alguma porcentagem disso eu aproveitei, não quero ver que eu não tentei melhorar a sociedade que nos cerca, que eu não tentei melhorar a vida de alguém, que eu não tentei destruir com a desigualdade. Eu com certeza não quero ter 70 anos e pensar que aproveitei bem a vida, que transei com mil mulheres e farreei. Numa sociedade doente pelo consumismo os números é que movem o mundo, mas não quero que sejam os números que movam minhas relações.

Sempre tive a impressão de que existiam dois lados no amor ou qualquer sentimento; racionalidade e romancismo, mas na verdade existe uma dualidade, é importante ter os dois lados, não precisamos, simbolicamente, agir apenas com o coração ou com o cérebro, podemos e devemos agir com os dois para acertar na decisão em que seja justa, plausível e que tornará as coisas reais. A sociedade pós-moderna é destrutiva, as relações se tornaram descartáveis, aqui retorno a citação que fiz no inicio do texto: A vida não é apenas soma de momentos, a vida é mais do que isso. Para se banhar em momentos de farra, bebida e “aproveitar a vida” já tiveram muitos na história da humanidade, e esse pensamento que desvia o foco do que realmente importa: Somos humanos, nós pensamos, agimos e amamos. Não devemos esquecer disso, devemos cair na realidade, altera-la e não se manter um ser subjetivo para que ela o altere.

A Revolução Industrial trouxe muitos ganhos para sociedade moderna, mas com ela damos os primeiros passos para uma mediocridade que afetou e afeta nossa sociedade. Se enganam os que acham que a sociedade está em constante evolução, o universo não é linear do mesmo modo como não somos. Assim como na queda de Roma no século V o medievo nos trouxe a barbárie, a ascensão do capitalismo nos transformou em bárbaros modernos, que descartam coisas, que estão em constante movimento insaciável com coisas que não importam, buscando mais mediocridade e se esvaindo dos contatos concretos. O perdão entra nesse momento, o reconhecimento dos erros, sua análise, sua crítica e no fim o perdão, isso está morrendo, o relacionamento para na análise e nunca chega ao perdão. Para que perdoar se posso procurar outra pessoa? Se você errar comigo, dentro dos meus limites eu perdoo. Se você errar mais uma vez, eu perdoo. Se você errar de novo, mais uma vez eu tento perdoar. Você não é descartável.

Tornou-se comum em sociedade a utilização da palavra “gozar” e a utilização dessa palavra aliada a palavra “momento” para descrever prazer e diversão. Eu não me importo apenas em gozar, eu não sou um animal que em cada época de acasalamento escolhe um parceiro diferente, eu sou humano e vocês estão se esquecendo disso. Eu superei meus instintos, eu superei a selvageria, eu não me preocupo em gozar, eu me preocupo em gozar e poder dizer “eu te amo”,  gozar por gozar não me satisfaz a longo prazo. Se fosse assim o que iria diferir sexo de masturbação? Eu me desenvolvi durante milhares e milhares de anos, eu aprendi a cultivar grãos, eu aprendi a espalhar minhas ideias por milênios através de uma coisa chamada escrita. Os cereais que eu como, o jeito que eu cultivo, a cerveja que eu tomo, o tempero que eu uso, não surgiram de momentos, eles surgiram de trabalho e esforço de milhões de seres-humanos que existiram antes de mim. Eu me recuso a regressar, eu me recuso a estagnar em uma sociedade em que as relações são desprezadas, em que os sentimentos são descartáveis e as pessoas renováveis. Eu me recuso a chegar ao fim da vida e ter o pensamento de que aproveitei a vida. Eu quero ter o pensamento de que eu fui bom para alguém, de que eu tentei melhorar a sociedade que estou inserido e, talvez tenha conseguido, de que eu insisti com pessoas que eu gosto. Eu sou mais do que vocês esperam de mim. Eu sou humano.

 

O texto a seguir foi retirado do Blog João Narciso

Mais  O Tinder e as feministas de 1917

Sobre o Autor

João Narciso

Aficionado por ciência política, admirador de coisas bonitas e veemente a simplicidade. Estudante de Sistemas de Informação, desenvolvedor front-end e designer.