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50 Milhões de Selfies: Fundamentos Psicossociais

50 Milhões de Selfies: Fundamentos Psicossociais

Os fenômenos sociais não costumam constituírem-se enquanto aleatoriedades autorreferentes. Esses tendem a ser expressão de estruturas e processos mais complexos, manifestações superficiais que ao se revelarem como elementos independentes e isolados tendem a esconder suas determinações mais profundas de conjunto. Essa constatação se aplica aos mais elementares e simplórios acontecimentos sociais que, aparentemente simples, trazem consigo complexos de complexos dinâmicos e contraditórios que contam com a interação entre história, cultura, economia, psique, biologia e outras esferas de estruturação social.

Um desses fenômenos cotidianos que tem chamado a atenção pela sua quantidade repetitivamente obsessiva é o fenômeno das ‘selfies’, as fotos tiradas de si mesmo. De acordo com a Priceonomics – empresa que faz avaliações estatísticas de informações na internet – somente no Instagram, até o ano de 2016, haviam sido postadas mais de 50 milhões de ‘selfies’. Para além desse dado, a empresa contabilizou o número de acidentes fatais causados por tentativas frustradas de tirar fotografias de si mesmo, sendo a ‘selfie’ responsável por mais mortes do que os ataques de tubarão.

Certamente o amor próprio exagerado não é um fenômeno novo na história humana. Basta recordarmos o famoso mito sobre Narciso, herói grego que, condenado a apaixonar-se por si mesmo, morre afogado ao encantar-se com sua própria imagem refletida na superfície espelhada de uma fonte. Não sendo, portanto, novo o fenômeno episódico do auto-amor exagerado, seria esse novo pela sua massiva reprodução? E, aceitando-se essa novidade pela quantidade, quais seriam as suas causas? E a sua relação com o fenômeno das ‘selfies’?

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Partindo-se do fenômeno ‘selfie’, uma primeira aproximação explicativa aponta para a base material que o possibilita e o visibiliza. A popularização da câmera fotográfica portátil integrada ao celular e o acesso à internet, respectivamente. Ou seja, a invenção e a popularização do smartphone é a base material que possibilita o fenômeno ‘selfie’. Mas isso por si só não explica tudo, pois a internet poderia ser utilizada para outro fim que não a rede social, essa, por sua vez, poderia ser também utilizada para outro fim que não a autoexposição e as fotografias poderiam conter outros elementos que não o próprio nariz do sujeito/objeto da foto.

Tendo que apostar intuitivamente numa explicação para o fenômeno selfie que transcenda a constatação da sua base material imediata, arriscaria dizer que a tsunami de ‘autofotos’ é um produto da interação entre o caráter desagregador das relações humanas sob o capitalismo e os seus efeitos psicológicos. Na sociedade burguesa, como disse Marx, tudo que é sólido se desmancha no ar e, como ratificou Bauman 150 anos depois, nada é feito para durar. Nossas relações são completamente instáveis, o amigo mais próximo de hoje é o desconhecido de amanhã; o amor eterno de hoje será de outro amanhã; a casa na qual moro hoje estará distante amanhã. A nossa única certeza sobre as relações do amanhã é que não serão mais as relações do hoje, desse modo, o estabelecimento de vínculos é um convite à frustração. Mas poderíamos nós viver na ausência ou na insuficiência de vínculos humanos duradouros? É completamente possível viver e não arriscar-se na experiência do amor?

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De acordo com Freud, qualquer ser-humano aspira à felicidade, o que significa a ausência de dor e desprazer e a vivência de sensações de prazer. No entanto a realização dessa aspiração se defronta com uma realidade objetiva independente que, além de ser fonte de restrições dos prazeres, é habitada por incontáveis possibilidades de sofrimento. A impotência perante tais restrições gera no indivíduo o que o autor austríaco chama de mal-estar. Na tentativa de contornar esse mal-estar o Homem desenvolveu uma série de procedimentos, os quais vão desde o uso de drogas ao ato de apaixonar-se, passando pela invenção das artes, das ciências, da religião e da política.

De todas essas técnicas humanas cujo fim é a felicidade, o amor-sexual, de acordo com Freud, é o que mais se aproxima do objetivo. Nas palavras do autor “é a mais intensa experiência de uma sensação avassaladora de prazer”. O ponto fraco dessa mesma técnica seria que ela é também a fonte mais insuportável de infelicidade caso o objeto de amor seja perdido ou não corresponda com as mesmas intenções. E é aqui que reside a nossa aproximação explicativa principal.

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Sendo o mundo burguês – individualista, egoísta e desagregador por excelência – completamente hostil ao amor como fenômeno durável, a possibilidade de sofrimento no ato de amar aumenta muito em relação à possibilidade de prazer. Nesse sentido o amor pelo outro é sempre um risco. Uma forma de tentar anular ou diminuir esse risco é anular ou diminuir as possibilidades de rejeição do objeto amado, assim, desenvolve-se o amor exagerado[1] por si mesmo, no qual o sujeito que ama é também o objeto amado, evitando, com isso, a possibilidade de rejeição. O fenômeno das ‘selfies’ em massa seria, portanto, um sintoma narcisista da sociedade burguesa possibilitado por uma base material específica típica do nosso tempo, o smartphone com acesso a internet.

[1] Essa base argumentativa pode ajudar a explicar também a disseminação do amor exagerado por animais (humanização dos animais domésticos) e do amor exagerado por objetos inanimados (consumismo).

Sobre o Autor

Pedro Narciso

Jovem que tem sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas.